Quando o presidente Lula disse que o Brasil "não pode aceitar esse tratamento", a frase foi precisa no tom e arriscada na estratégia. Precisa porque sinaliza ao eleitorado — especialmente às parcelas que associam soberania a musculatura diplomática — que o governo não se curva. Arriscada porque a OMC é um fórum lento, e a tarifa de 25% dos EUA, se confirmada, tem prazo para começar a morder antes que qualquer decisão multilateral apareça no horizonte.
O Brasil diversificou bem. Os números de 2025 — US$ 348,7 bilhões em exportações, com China absorvendo 37% e Índia crescendo 52,9% — mostram que o país reduziu sua vulnerabilidade ao mercado norte-americano de forma consistente. Mas diversificação não é blindagem. Celulose, suco de laranja, etanol e carnes ainda têm os Estados Unidos como destino relevante, e são exatamente esses setores que sofreriam o impacto mais imediato de uma tarifa de 25%.
A questão que o Palácio do Planalto precisa responder com clareza é: o que se negocia? Enrijecer o discurso sem ter uma proposta concreta de contrapartida é teatro diplomático. Trump responde a interesses — e os interesses americanos no Brasil incluem acesso a minerais críticos (tema que Lula e Trump já discutiram na Casa Branca), contratos da indústria de defesa e, cada vez mais, a disputa com a China pelo alinhamento de economias emergentes.
O acordo UE-Mercosul dá ao Brasil um argumento: o país tem alternativas. Mas o melhor uso desse argumento não é o confronto aberto — é a negociação privada que usa a ameaça de aprofundar a relação com a Europa como alavanca para extrair concessões de Washington. Isso exige sofisticação diplomática que a retórica de "não vamos aceitar humilhações" dificulta.
Há um componente eleitoral que não pode ser ignorado. Com a campanha presidencial se aproximando e a pesquisa Real Time Big Data mostrando Lula com rejeição de 48%, a narrativa de um Brasil que enfrenta Trump sem piscar tem apelo junto ao eleitorado de esquerda e centro-esquerda. O problema é que o custo de uma guerra comercial não recai sobre quem vota por princípio — recai sobre o agricultor do Mato Grosso que vende soja, sobre o trabalhador da celulose e sobre o preço do combustível na bomba, que é precificado em dólar.
O governo tem razão de resistir à tarifa. Mas resistir com inteligência e resistir com altivez são coisas diferentes. Uma crise comercial com os EUA às vésperas de uma eleição apertada é o último cenário que o Planalto precisava. A questão agora é se o barulho da reação está servindo à diplomacia ou apenas à campanha.
